sábado, 13 de junho de 2015

América Latina: modernização capitalista, desencantamento e migração


O movimento do capitalismo globalizado e da modernidade deveriam, como pensavam alguns intelectuais, ter impulsionado a América Latina e o Brasil, especificamente, a um processo de desenvolvimento que nos guiaria para a superação do subdesenvolvimento, das nossas limitações econômicas e das nossas mazelas sociais construídas a partir de um passado de colonização baseado na extrema violência expropriatória. Deixaríamos de ser tupiniquins e nos tornaríamos uma cópia dos europeus e dos “americanos”.
Pensar a modernização tendo como plano de fundo a América Latina significa apreender que o desenvolvimento prometido pelo aprofundamento das relações capitalistas nesse continente não se concretizou, porque nessas bandas a música toca de forma diferente. O capitalismo enquanto modo de produção que se hegemonizou no mundo, durante o século XX, a partir dos países capitalistas centrais, onde o processo de industrialização e urbanização aconteceram mais cedo do que nas demais regiões do globo e onde as sociedades proletárias organizadas obtiveram, especificamente, após a Segunda Guerra, uma série de direitos, que mais poderiam ser considerados como diria Heidemann[1], uma “dignidade de segundo grau” –  pois não rompiam com a estrutura de classes – como acesso à habitação, aos serviços de saúde, à educação de qualidade, ao mercado de consumo e à previdência, instalou-se no Terceiro Mundo com vieses de precarização muito mais fortes do que nos países centrais.
A tentativa da América Latina de ingressar na economia global abriu suas fronteiras para um outro tipo de submissão pós colonial, a submissão econômica. Foi a partir do aprofundamento do capitalismo na América Latina que as formas de produção pré-capitalistas, baseadas na autossuficiência e nos valores de uso dos camponeses, foram destruídas rapidamente, pela entrada do modo mecanizado e racionalizado de produção de monoculturas em grande escala, aprofundando o monopólio sobre as terras, a proletarização e o desemprego de populações de trabalhadores rurais. A mobilidade do trabalho se instala nessa lógica de mecanização do campo, com expulsão de camponeses e industrialização urbana com urgência de braços para alimentar as linhas de produção que se instalavam nas principais cidades desses países.
Não queremos com isso afirmar que o capitalismo é um sistema humanizado nos países centrais, longe disso, na linha histórica de evolução desse modo de produção, os trabalhadores desses países foram os primeiros a serem expostos aos processos de expropriação, a perderem suas terras e a se tornarem livres dos meios de produção, enquanto suas florestas foram praticamente extintas, seus rios foram poluídos, e no caso dos Estados Unidos, os nativos foram, praticamente, totalmente exterminados. No entanto, após um processo de reajuste político, e sob a ameaça da ideologia do socialismo soviético, os trabalhadores obtiveram dos governos locais o reconhecimento de alguns direitos e conseguiram ingressar no mercado de consumo, o que lhes proporcionou naquelas décadas um certo conforto, que acabou por contribuir para a manutenção do status quo. Nesses países centrais chegaram a se construir cidades eficientes, bons sistemas de transportes para a circulação de pessoas e mercadorias e sistemas educacionais de alta qualidade. Por outro lado, o processo de modernização latino americano arrastou milhões de migrantes do campo para as cidades, o que afetou profundamente a paisagem urbana, cujas favelas se tornaram a prova do fracasso do capitalismo como modelo de desenvolvimento social, apesar do reconhecido aumento no tamanho dessas economias nacionais ancorado no aprofundamento das desigualdades sociais e na acumulação do capital por uma parcela minoritária da população. Por aqui, não se constituíram cidades eficientes, integradas por meios de transporte rápidos, tampouco educação pública ou sistemas de saúde eficientes. Se o capitalismo para os trabalhadores europeus e estadunidenses se configurava como penoso na segunda metade do século XX, o que dizer das condições de vida dos trabalhadores brasileiros ou latino americanos, que nem ao menos puderam contar com a constituição de um Estado de Bem Estar Social, foram oprimidos por longas e sangrentas ditaduras e, além disso, encontram-se atualmente sob ataque da ideologia neoliberal, surgida, logicamente, nos países centrais?
Para dar sustentação ao sistema de exploração da mão de obra e para se fazer cumprir o processo de acumulação pela extração da mais-valia, foi necessário, desde o começo, moralizar os trabalhadores rurais e urbanos, combater os sindicatos e as ligas camponesas, abafar as contestações e a influência comunista, o que justificou a instalação de ditaduras militares por todo o continente latino americano, como forma de subordinação da América Latina aos interesses dos EUA. A América Latina a partir desse período configurou-se como um imenso quintal da América do Norte.
Esse processo de modernização trouxe consigo o desencantamento, transformando a América Latina em um “continente desencantado”, uma expressão forjada por André Bueno[2] inspirado pelo conceito de “desencantamento do mundo” de Max Weber. A utopia da unidade latino americana, como pensava Simon Bolívar, a construção de uma “Nuestra América”, independente e soberana frente às potências capitalistas, caíram em esquecimento com o advento do processo de modernização, os espaços foram fragmentados, os laços foram fragmentados e os países e regiões isolados. As formas alternativas de organização econômicas pré-capitalistas, os vínculos familiares e comunitários e seus valores se veem forçados à extinção, ao esquecimento, em benefício de um modo de produção que de tão racional converte a vida em total irracionalidade pela mediação da produção e do consumo das mercadorias, e onde tudo passa a ser apropriado como mercadoria, desde a cultura, até a religião. Não é que não haja resistências, como os movimentos urbanos por moradia, ou os movimentos rurais dos trabalhadores sem terras, mas esses movimentos não conseguem romper com a ideologia da modernização, buscam, na verdade serem incluídos no processo produtivo, a partir do acesso à propriedade, seja da habitação urbana, seja a partir da conquista de uma parcela de terra no campo, para produção e comercialização de mercadorias, que os manterá reféns do mesmo sistema. Dessa forma, o processo de resistência encontra-se preso aos muros do modo de produção capitalista na América Latina, não conseguindo trilhar formas de resistência que possam de fato romper com esse modelo de exploração. A construção de uma outra América Latina, indígena, mestiça, negra, reunida por ideais regionais próprios, visando a autoafirmação do conceito de latino americanidade, e negando a subordinação histórica às potências imperialistas, se tornou, com o capitalismo globalizado pelo processo de modernização um sonho cada vez mais anacrônico no imaginário popular, sendo substituído pela frieza das relações capitalistas, pela impessoalidade das relações produtivas que se manifestam mediadas pelo consumo das mercadorias produzidas num processo de trabalho abstrato.
Como aborda André Bueno, a literatura modernista foi construindo uma identificação latino americana que contrariava o processo de moralização social, de padronização do cidadão capitalista, como uma forma de resistência dos povos latinos, uma tentativa de construção de um nacionalismo. Surgiram assim as figuras literárias baseadas em retratos de sujeitos onde a preguiça, a sensualidade, a malícia, a cordialidade e a malandragem eram uma forma de resistência e uma característica de leveza e felicidade que se contrapunha aos valores da ética do trabalho da modernização capitalista. Dessa forma, essas personagens caem no esquecimento pelo mesmo processo necessário ao capitalismo de hegemonizar os espaços onde se constitui a exploração, pela necessidade de anular características de organizações culturais, sociais e econômicas particulares, para que não se constituam as possibilidades de resistências.



[1] HEIDEMANN, Dieter. “Os migrantes e a crise da sociedade do trabalho: humilhação secundária, resistência e emancipação”. In: Migrações: discriminações e alternativas. São Paulo: Paulinas/SPM, 2004;

[2] BUENO, André. O continente desencantado. In: Revista Travessia. N. 38 (1999). Universidade Federal de Santa Catarina. 

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