América Latina: modernização capitalista, desencantamento e migração
O
movimento do capitalismo globalizado e da modernidade deveriam, como pensavam
alguns intelectuais, ter impulsionado a América Latina e o Brasil,
especificamente, a um processo de desenvolvimento que nos guiaria para a
superação do subdesenvolvimento, das nossas limitações econômicas e das nossas
mazelas sociais construídas a partir de um passado de colonização baseado na
extrema violência expropriatória. Deixaríamos de ser tupiniquins e nos
tornaríamos uma cópia dos europeus e dos “americanos”.
Pensar
a modernização tendo como plano de fundo a América Latina significa apreender
que o desenvolvimento prometido pelo aprofundamento das relações capitalistas
nesse continente não se concretizou, porque nessas bandas a música toca de
forma diferente. O capitalismo enquanto modo de produção que se hegemonizou no
mundo, durante o século XX, a partir dos países capitalistas centrais, onde o
processo de industrialização e urbanização aconteceram mais cedo do que nas
demais regiões do globo e onde as sociedades proletárias organizadas obtiveram,
especificamente, após a Segunda Guerra, uma série de direitos, que mais
poderiam ser considerados como diria Heidemann[1],
uma “dignidade de segundo grau” – pois
não rompiam com a estrutura de classes – como acesso à habitação, aos serviços
de saúde, à educação de qualidade, ao mercado de consumo e à previdência,
instalou-se no Terceiro Mundo com vieses de precarização muito mais fortes do
que nos países centrais.
A
tentativa da América Latina de ingressar na economia global abriu suas fronteiras
para um outro tipo de submissão pós colonial, a submissão econômica. Foi a
partir do aprofundamento do capitalismo na América Latina que as formas de
produção pré-capitalistas, baseadas na autossuficiência e nos valores de uso
dos camponeses, foram destruídas rapidamente, pela entrada do modo mecanizado e
racionalizado de produção de monoculturas em grande escala, aprofundando o
monopólio sobre as terras, a proletarização e o desemprego de populações de
trabalhadores rurais. A mobilidade do trabalho se instala nessa lógica de
mecanização do campo, com expulsão de camponeses e industrialização urbana com
urgência de braços para alimentar as linhas de produção que se instalavam nas
principais cidades desses países.
Não
queremos com isso afirmar que o capitalismo é um sistema humanizado nos países
centrais, longe disso, na linha histórica de evolução desse modo de produção,
os trabalhadores desses países foram os primeiros a serem expostos aos
processos de expropriação, a perderem suas terras e a se tornarem livres dos
meios de produção, enquanto suas florestas foram praticamente extintas, seus
rios foram poluídos, e no caso dos Estados Unidos, os nativos foram,
praticamente, totalmente exterminados. No entanto, após um processo de reajuste
político, e sob a ameaça da ideologia do socialismo soviético, os trabalhadores
obtiveram dos governos locais o reconhecimento de alguns direitos e conseguiram
ingressar no mercado de consumo, o que lhes proporcionou naquelas décadas um
certo conforto, que acabou por contribuir para a manutenção do status quo.
Nesses países centrais chegaram a se construir cidades eficientes, bons
sistemas de transportes para a circulação de pessoas e mercadorias e sistemas
educacionais de alta qualidade. Por outro lado, o processo de modernização
latino americano arrastou milhões de migrantes do campo para as cidades, o que
afetou profundamente a paisagem urbana, cujas favelas se tornaram a prova do
fracasso do capitalismo como modelo de desenvolvimento social, apesar do
reconhecido aumento no tamanho dessas economias nacionais ancorado no
aprofundamento das desigualdades sociais e na acumulação do capital por uma
parcela minoritária da população. Por aqui, não se constituíram cidades
eficientes, integradas por meios de transporte rápidos, tampouco educação
pública ou sistemas de saúde eficientes. Se o capitalismo para os trabalhadores
europeus e estadunidenses se configurava como penoso na segunda metade do
século XX, o que dizer das condições de vida dos trabalhadores brasileiros ou
latino americanos, que nem ao menos puderam contar com a constituição de um
Estado de Bem Estar Social, foram oprimidos por longas e sangrentas ditaduras
e, além disso, encontram-se atualmente sob ataque da ideologia neoliberal, surgida,
logicamente, nos países centrais?
Para
dar sustentação ao sistema de exploração da mão de obra e para se fazer cumprir
o processo de acumulação pela extração da mais-valia, foi necessário, desde o
começo, moralizar os trabalhadores rurais e urbanos, combater os sindicatos e
as ligas camponesas, abafar as contestações e a influência comunista, o que
justificou a instalação de ditaduras militares por todo o continente latino
americano, como forma de subordinação da América Latina aos interesses dos EUA.
A América Latina a partir desse período configurou-se como um imenso quintal da
América do Norte.
Esse
processo de modernização trouxe consigo o desencantamento, transformando a
América Latina em um “continente desencantado”, uma expressão forjada por André
Bueno[2]
inspirado pelo conceito de “desencantamento do mundo” de Max Weber. A utopia da
unidade latino americana, como pensava Simon Bolívar, a construção de uma
“Nuestra América”, independente e soberana frente às potências capitalistas,
caíram em esquecimento com o advento do processo de modernização, os espaços
foram fragmentados, os laços foram fragmentados e os países e regiões isolados.
As formas alternativas de organização econômicas pré-capitalistas, os vínculos
familiares e comunitários e seus valores se veem forçados à extinção, ao
esquecimento, em benefício de um modo de produção que de tão racional converte
a vida em total irracionalidade pela mediação da produção e do consumo das
mercadorias, e onde tudo passa a ser apropriado como mercadoria, desde a
cultura, até a religião. Não é que não haja resistências, como os movimentos
urbanos por moradia, ou os movimentos rurais dos trabalhadores sem terras, mas
esses movimentos não conseguem romper com a ideologia da modernização, buscam,
na verdade serem incluídos no processo produtivo, a partir do acesso à
propriedade, seja da habitação urbana, seja a partir da conquista de uma
parcela de terra no campo, para produção e comercialização de mercadorias, que
os manterá reféns do mesmo sistema. Dessa forma, o processo de resistência
encontra-se preso aos muros do modo de produção capitalista na América Latina,
não conseguindo trilhar formas de resistência que possam de fato romper com
esse modelo de exploração. A construção de uma outra América Latina, indígena,
mestiça, negra, reunida por ideais regionais próprios, visando a autoafirmação
do conceito de latino americanidade, e negando a subordinação histórica às
potências imperialistas, se tornou, com o capitalismo globalizado pelo processo
de modernização um sonho cada vez mais anacrônico no imaginário popular, sendo
substituído pela frieza das relações capitalistas, pela impessoalidade das
relações produtivas que se manifestam mediadas pelo consumo das mercadorias
produzidas num processo de trabalho abstrato.
Como
aborda André Bueno, a literatura modernista foi construindo uma identificação
latino americana que contrariava o processo de moralização social, de
padronização do cidadão capitalista, como uma forma de resistência dos povos
latinos, uma tentativa de construção de um nacionalismo. Surgiram assim as
figuras literárias baseadas em retratos de sujeitos onde a preguiça, a
sensualidade, a malícia, a cordialidade e a malandragem eram uma forma de
resistência e uma característica de leveza e felicidade que se contrapunha aos
valores da ética do trabalho da modernização capitalista. Dessa forma, essas
personagens caem no esquecimento pelo mesmo processo necessário ao capitalismo
de hegemonizar os espaços onde se constitui a exploração, pela necessidade de
anular características de organizações culturais, sociais e econômicas
particulares, para que não se constituam as possibilidades de resistências.
[1]
HEIDEMANN, Dieter.
“Os migrantes e a crise da sociedade do trabalho: humilhação secundária,
resistência e emancipação”. In: Migrações: discriminações e alternativas. São
Paulo: Paulinas/SPM, 2004;
[2]
BUENO, André. O continente desencantado. In: Revista Travessia. N. 38 (1999).
Universidade Federal de Santa Catarina.